terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Fernando Pessoa

Foi um momento
O em que pousaste
Sobre o meu braço,
Num movimento
Mais de cansaço
Que pensamento,
A tua mão
E a retiraste.
Senti ou não?

Não sei. Mas lembro
E sinto ainda
Qualquer memória
Fixa e corpórea
Onde pousaste
A mão que teve
Qualquer sentido
Incompreendido,
Mas tão de leve!...

Tudo isto é nada,
Mas numa estrada
Como é a vida
Há uma coisa
Incompreendida...

Sei eu se quando
A tua mão
Senti pousando
Sobre o meu braço,
E um pouco, um pouco,
No coração,
Não houve um ritmo
Novo no espaço?

Como se tu,
Sem o querer,
Em mim tocasses
Para dizer
Qualquer mistério,
Súbito e etéreo,
Que nem soubesses
Que tinha ser.

Assim a brisa
Nos ramos diz
Sem o saber
Uma imprecisa
Coisa feliz.


Fernando Pessoa

terça-feira, 27 de novembro de 2007

Flutuando

Nestas atribulações constantes
O meu barco navega.
Pouco ou nada vale,
Ser dele comandante.
As marés calmas
Ou as tempestades fulgurantes,
É o que me comandam.
Navego nele à deriva.
Ao sabor da solidão,
E às ondas vou cantando
O fado triste da ilusão.

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

Palma

Foi uma viagem na palma da mão…na palma da mão do Tio Palma, ontem no Coliseu da Invicta.

Irreverente, sonhador, poeta, boémio como só ele sabe ser…

Quanto for grande quero ser como tu Tio Palma…


Para recordar Estrela do Mar.. em breve video do espetáculo...

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Orelha

Sinto aquele vento a entrar pela minha orelha direita e acho estranho o arrepio que ele provoca no meu cérebro já gasto de tantas horas a pensar na morte da Bezerra.

Eis senão quando, me lembro que não conheci pessoalmente nenhuma Bezerra.

Porém, convivi com algumas Vitelas de carne tenra e suculenta, ao que me leva a deduzir que não sou vegetariano nem “alinho” nessas novas formas de inventar alimentos a que dão o nome de “cozinha orgânica”.

Todavia, gosto de um bom grelo, não muito temperado, apenas duas ou três pitadas de sal.

Já na orelha esquerda, aquela onde uso aparelho auditivo, não sinto o vento nem algo que se pareça com algum tipo de ruído ou barulho, o que me leva a finalizar este meu pequeno desabafo, com a maravilhosa conclusão que tenho de trocar a pilha ao aparelho, urgentemente.

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

David Mourão-Ferreira

E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se envolam tantos anos.

David Mourão-Ferreira

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Lume brando

No limbo constante,
Da incerteza,
Da profanação,
Do alucinamento flutuante,
Da fome,
Da ruptura,
Da difamação.
Sim, sou eu,
Este que vos escreve,
Perdido,
Achado,
No lume brando
Que é esta esfera,
Onde a sorte te leva,
Onde a quimera te espera.

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

José Régio - O Amor e a Morte

Canção cruel

Corpo de ânsia.
Eu sonhei que te prostava,
E te enleava
Aos meus músculos!

Olhos de êxtase,
Eu sonhei que em vós bebia
Melancolia
De há séculos!

Boca sôfrega,
Rosa brava
Eu sonhei que te esfolhava
Petala a pétala!

Seios rígidos,
Eu sonhei que vos mordia
Até que sentia
Vómitos!

Ventre de mármore,
Eu sonhei que te sugava,
E esgotava
Como a um cálice!

Pernas de estátua,
Eu sonhei que vos abria,
Na fantasia,
Como pórticos!

Pés de sílfide,
Eu sonhei que vos queimava
Na lava
Destas mãos ávidas!

Corpo de ânsia,
Flor de volúpia sem lei!
Não te apagues, sonho! mata-me
Como eu sonhei.


José Régio

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Cássia Eller - Por Enquanto

Cássia Eller, uma das melhores vozes brasileiras dos últimos tempos, uma verdadeira "estrela rock", com toda a irreverência que lhe era característica, marcava pela diferença na MPB. Lésbica assumida e problemas com alcool e drogas, tem um fim trágico devido aos mesmos, morre em Dezembro 2001 com 39 anos, deixando a sua marca na música e na vida devido à sua forma "louca" de bem viver frases como as que se seguem, mostram um pouco da Cássia Eller no seu melhor:

-"Sou mulher, sou pobre, sapatão, mãe solteira, preencho todas as lacunas. Têm de saber lidar com o preconceito" (Maio de 2001)

- "Acho ótimo a pirataria, acho 'o bicho'. O cara não tem dinheiro, nem nada. Vai ficar sem ouvir música?"(Maio de 2001)

Cássia deixou a sua musica, a sua forma de cantar, a sua loucura, aqui está ela no melhor que sabia fazer... (en)cantar com a sua voz

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Eugénio de Andrade

Hoje roubei todas as rosas dos jardins
e cheguei ao pé de ti de mãos vazias.

Eugénio de Andrade

terça-feira, 23 de outubro de 2007

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Segunda Casa

Dividido por compartimentos,
A banda sonora nocturna.
Alimentos,
Arrependimentos,
Novo habito de rua.
Explorar,
Descobrir.
O convívio e a fartura.
A lágrima na parede,
Sonhos de uma nova cultura.

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

De que me rio eu?...

De que me rio eu?... Eu rio horas e horas
só para me esquecer, para me não sentir.
Eu rio a olhar o mar, as noites e as auroras;
passo a vida febril inquietantemente a rir.

Eu rio porque tenho medo, um terror vago
de me sentir a sós e de me interrogar;
rio pra não ouvir a voz do mar pressago
nem a das coisas mudas a chorar.

Rio pra não ouvir a voz que grita dentro de mim
o mistério de tudo o que me cerca
e a dor de não saber porque vivo assim.


António Patrício

terça-feira, 16 de outubro de 2007

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Inversão

Divago inconscientemente
Atrás da ilusão
Nada, ninguém,
Impedirá esta fúria.
Emerge em mim como fogo
Latejando todos os meus sentidos.
Acordo,
Revolto-me…
O sonho já está perdido.
Cansado,
Hoje não penso mais,
Amanha será outro dia.

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

The Gift - Fácil de Entender

E aquela gota que sai dos olhos a que deram o nome de lágrima, cai...

terça-feira, 9 de outubro de 2007

Coração sem imagens

Deito fora as imagens,
Sem ti para que me servem
as imagens?

Preciso habituar-me
a substituir-te
pelo vento,
que está em toda a parte
e cuja direcção
é igualmente passageira
e verídica.

Preciso habituar-me ao eco dos teus passos
numa casa deserta,
ao trémulo vigor de todos os teus gestos
invisíveis,
à canção que tu cantas e que mais ninguém ouve
a não ser eu.

Serei feliz sem as imagens.
As imagens não dão
felicidade a ninguém.

Era mais difícil perder-te,
e, no entanto, perdi-te.

Era mais difícil inventar-te,
e eu te inventei.

Posso passar sem as imagens
assim como posso
passar sem ti.

E hei-de ser feliz ainda que
isso não seja ser feliz.



Raul de Carvalho

terça-feira, 2 de outubro de 2007

Paulo Gonzo & Carlos do Carmo - Estranha Forma de Vida

Gravado ao vivo no Coliseu de Lisboa, dois grandes senhores da Música Portuguesa, misturam o fado com o blues.
Não acho que tenha sido por vontade de deus, mas todos os "ais" que digo são meus, nesta estranha forma vida que tem o meu coração...

Tem e nao é pouca...

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Caminho antigo

Repisando o caminho,
De outras aventuras.
Sabor a passado,
Olhos brilhantes do futuro.
A pausa.
O relembrar.
Mais caminho antigo.
A chegada.
A luxúria
A partida para mais uma loucura.
O saber estar…e ir !
O mudar, rodar, partir
Sonhar.
O acordar e sorrir.

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Go Graal Blues Band - Lonely

Foi uma das bandas mais marcantes do Rock Portugues, sempre na onda dos Blues, a Go Graal Blues Band, tinha um som único e forte, pena é nunca ter sido editado em Cd os seus albuns.
Para recordar, aqui fica uma pérola (será bom dizer que o videoclip é um bocado fraquinho... mas para os anos 80 não está mal...e ainda se pode ver o Exmo. Sr. Paulo Gonzo com a voz no seu melhor e com cabelo)

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Vasculhar

Longe do que sou,
Rodeado de algo que não fui.
O céu, cinzento como sempre.
O frio, aconchegante.
Estar ali…
Não estar.
Saber voar na luz.
Vasculhar um sorriso.
Vasculhar dois ou três olhares.
No meio… a busca dos sentidos.
A porta que te leva,
A sombra que te conduz.
Estou longe do que sou.
E não estou perto de te encontrar.

terça-feira, 25 de setembro de 2007

Pablo Neruda

Este domingo voltei a sentir o frio da escada ao rever um dos filmes da minha vida.
Ja o vi vezes sem conta, ja deixei escorrer a mesma lágrima outras tantas vezes ao ver o filme.
Pablo Nerura era um ser maior, com o dom da escrita, com o dom de por vezes dizer aquilo que nós pensamos.
E para recordar aqui fica a obra do Mestre

Não te quero senão porque te quero,
e de querer-te a não te querer chego,
e de esperar-te quando não te espero,
passa o meu coração do frio ao fogo.
Quero-te só porque a ti te quero,
Odeio-te sem fim e odiando te rogo,
e a medida do meu amor viajante,
é não te ver e amar-te,
como um cego.

Tal vez consumirá a luz de Janeiro,
seu raio cruel meu coração inteiro,
roubando-me a chave do sossego,
nesta história só eu me morro,
e morrerei de amor porque te quero,
porque te quero amor,
a sangue e fogo.

Pablo Neruda

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Palavras

As vezes não é necessário a música para saborear as palavras que são cantadas... Esta, foi escrita por Pedro Malaquias para Paulo Gonzo e, é das poucas que gostaria que tivessem saído da minha caneta, mas escrever esta letra não está ao meu "nível"... apenas gosto de voar ao sabor destas palavras com ou sem música...

Leve Beijo Triste

Teimoso subi
Ao cimo de mim
E no alto rasgei
As voltas que dei

Sombra de mil sóis em glória
Cobrem todo o vale ao fundo
Dorme meu pequeno mundo

Como um barco vazio
P´las margens do rio
Desce o denso véu lilás
Desce em silêncio e paz
Manso e macio

Deixa que te leve
assim tão leve
Leve e que te beije meu anjo triste
Deixo-te o meu canto canção tão breve
Brando como tu amor pediste

Não fales calei
Assim fiquei
Sombra de mil sóis cansados
Crescendo como dedos finos
A embalar nossos destinos

Deixa que te leve
assim tão leve
Leve e que te beije meu anjo triste
Deixo-te o meu canto canção tão breve
Brando como tu amor pediste


Deixa que te leve
assim tão leve
Leve e que te beije meu anjo triste
Deixo-te o meu canto canção tão breve
Brando como tu amor pediste

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Massive Attack - Angel

Massive Attack, ontem, no Coliseu do Porto, não estava à espera de ir assistir, foi "coisa" de última hora, um som de qualidade, luzes perfeitas, simplesmente brilhante e arrebatador.

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Jorge Palma - Os Demitidos

Poucas palavras bastam para o Tio Palma... ÉS O MAIOR

terça-feira, 11 de setembro de 2007

NBC vs GNR

Ja está presente no vão desta escada a música que se segue.
Estava apenas em audio, sem imagens. E como nao existe video clip da mesma, fica aqui a actuação ao vivo no Rock in Rio da dupla NBC & GNR na música Bem Vindo ao Passado que faz parte do CD de tributo aos GNR.
Há algo nesta música, nesta letra, nesta maneira de dizer as palavras...
Sintam...

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

Jorge de Sena

De mim não falo mais :não quero nada.
De Deus não falo:não tem outro abrigo.
Não falarei também do mundo antigo,
pois nasce e morre em cada madrugada.

Nem de existir,que é a vida atraiçoada,
para sentir o tempo andar comigo;
nem de viver,que é liberdade errada,
e foge todo o Amor quando o persigo.

Por mais justiça ...-Ai quantos que eram novos
em vâo a esperaram porque nunca a viram!
E a eternidade...Ó transfusâo dos povos!

Não há verdade:O mundo não a esconde.
Tudo se vê: só se não sabe aonde.
Mortais ou imortais,todos mentiram.

Jorge de Sena

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Vanessa da Mata & Ben Harper - Boa Sorte/Good Luck

Na continuação do post anterior, mais uma música que me acompanhou e acompanha neste verão.
Esta é daqueles músicas que mesmo com o calor que se faz sentir, o frio da escada volta a arrepiar a espinha.
A simplicidade das palavras na voz doce de Vanessa da Mata e a soul de Ben Harper.

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Micro Audio Waves - Down by Flow

Foi e ainda é uma das minhas bandas sonoras deste verão. Uma voz cativante, um ritmo que nos leva a mexer e a nao querer estar parado... São Portugueses, são os Micro Audio Waves

terça-feira, 4 de setembro de 2007

Partilha

São momentos,
São conversas,
Um ou outro toque.
Um sorrir,
Um gargalhar.
Uma divagação nocturna.
Sonhos e desilusões partilhadas.
Um entender,
Um compreender.
Um gostar de te ter ao meu lado,
E contigo viajar.